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O burnout ou síndrome de desgaste pelo trabalho.
⌚ 18.10.2019
As novas doenças mentais do século XXI

O termo burnout surgiu na década de 70, quando uma psicóloga - Maslach- o utilizou numa reunião da Associação Americana de Psicólogos para descrever casos de desgaste profissional em profissionais que trabalhavam em contato direto com pessoas. No entanto, a verdade é que esta interpretação tem vindo a ser alargada a outros âmbitos profissionais, o que tem vindo a gerar alguma polémica, nomeadamente a partir da altura em que foi reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças (CID), em particular a CID-11, que entra em vigor em 2020.

Contudo, o que é evidente e consensual é que o burnout constitui uma resposta ao stress crónico no trabalho, e tem consequências negativas no âmbito individual, social e organizacional. Acontece tipicamente em áreas profissionais que mantenham uma relação direta com outras pessoas, nomeadamente médicos, enfermeiros, professores, assistentes sociais, policias e bombeiros.

No fundo, o burnout indica um fracasso em termos individuais na capacidade de se envolver em estratégias de coping perante uma situação de stress crónico num ambiente profissional.

O termo apareceu pela primeira vez na Classificação Internacional de Doenças 10 (CID -10), da Organização Mundial de Saúde (OMS), e na última edição, CID-11, reapareceu de forma mais clara e enquadrado nos problemas associados ao emprego ou desemprego.

A OMS descreveu o burnout como um problema importante no futuro do mundo atual.

O termo burnout é definido, segundo o termo inglês, como aquilo que deixou de funcionar por absoluta falta de energia. Metaforicamente é aquilo, ou aquele, que chegou ao seu limite, com grande prejuízo do seu desempenho físico e mental.

Burnout, tal como definido por Maslach, é caracterizado por três elementos: por um lado uma Exaustão Emocional (EE); por outro o Distanciamento Afetivo (despersonalização -DA) e por último a Baixa Realização Profissional (RP).

A partir desta definição, foi estabelecida uma escala que permite avaliar estes elementos no âmbito das pessoas que trabalham em profissões de contato direto com os outros.

A exaustão emocional é simples de perceber. É um conjunto de sintomas que inclui sentimentos de desesperança, solidão, depressão, raiva, irritabilidade e tensão. Concluindo,  é uma sensação geral de baixa energia. Pode haver outros sintomas como a alteração do sono ou perda de apetite, mas não são considerados tão específicos.

O distanciamento emocional tem haver com a sensação de alienação dos outros, pacientes, alunos, clientes, sendo muitas vezes a presença destes desagradável e não desejada, resultante num trato impessoal, frio e cínico com estes.

A baixa realização profissional, ou baixa satisfação com o trabalho pode ser descrita como uma sensação de que muito pouco tem sido alcançado e que o que foi realizado não tem valor.

Há muitos estudos epidemiológicos realizados nos Estados Unidos, e na Europa, e Portugal não é exceção. Os estudos mais frequentes incidiram sobre profissões relacionadas com os cuidados de saúde particularmente enfermeiros ou médicos. Mais recentemente, os estudos estão a ser alargados, e em Portugal há já um estudo feito sobre o burnout nos professores.

As implicações financeiras que tem o burnout devem ser avaliadas de forma indireta, através da insatisfação no trabalho, do absentismo, da rotatividade e a reforma antecipada provocada pela síndrome. Nos Estados Unidos o stress e problemas relacionados, como o burnout, provocam um custo calculado de mais de $150 bilhões/ano para as organizações (Donatelle e Hawkins, 1989).

Um estudo da OMS, considerou o burnout como uma das principais doenças dos europeus e americanos, ao lado da diabetes e doenças cardiovasculares (Akerstedt, 2004; Weber e Jaekel-Reinhard, 2000) e convocou um grupo internacional de especialistas com o objetivo de elaborar medidas para a sua prevenção (WHO, 1998)

Em relação à população geral, pouco se sabe sobre a prevalência do burnout. Contudo, um estudo alemão estimou que 4,2% da população de trabalhadores apresentava a síndrome (Houtman et al., 1998).

 

Dependendo da especialidade médica ou região dos Estados Unidos, os estudos observaram uma variação na percentagem de médicos vítimas de burnout entre os 40% e 70% (Creagan, 1993; Creagan, 1998; Gundersen, 2001; Spickard et al., 2002). As especialidades médicas consideradas de maior risco foram a emergência, as doenças infeciosas, a oncologia, a psiquiatria e medicina geral.

Em Espanha, um estudo transversal focado nos médicos de Medicina Geral e Familiar e nos médicos com outras especialidades concluiu que 85,7% dos Médicos de Familia sofrem de burnout e 69,1% nas restantes especialidades. (Muñoz et al., 2003).

Os fatores de risco a ter em consideração são: a organização, o individuo, o trabalho e a sociedade. A nível das organizações, há muitos fatores que já conhecemos, como a burocracia ou o excesso de normas, a falta de autonomia a impossibilidade de tomar decisões sem obter a autorização de outrem, as normas institucionais muito rígidas, mudanças organizacionais frequentes, uma comunicações ineficiente dentro da equipa, a impossibilidade de ascender na carreira, de melhorar a remuneração  ou de reconhecimento do seu trabalho, um ambiente físico com riscos de diferentes tipos, ou outros como acumulação de tarefas por um só individuo ou até o convívio com colegas afetados pela síndrome.

Ao nível dos fatores individuais, estão relacionados com a personalidade da pessoa atingida. Com especial atenção para aqueles indivíduos caracterizados pelo padrão de personalidade tipo A como sendo a personalidade que está associada a índices superiores da síndrome. Ou seja, aqueles mais competitivos, impacientes, com maior necessidade de controle sobre as situações que os rodeiam e dificuldade em tolerar a frustração.

Embora sejam estes os indivíduos que todos esperamos serem os mais suscetíveis a níveis superiores de burnout, também aqueles indivíduos caracterizados 'super-envolvidos' podem também ser especialmente atingidos pelo burnout. São aqueles que estão super-envolvidos pelo trabalho, empáticos, sensíveis, humanos, com dedicação profissional, altruístas, mas obsessivos e mais suscetíveis a identificarem-se com os demais.

Os fatores do burnout associados ao trabalho são: a sobrecarga, quer em quantidade ou qualidade, ou insuficiência técnica, tempo ou infraestrutura organizacional. Também o baixo nível de controlo das atividades ou acontecimentos no próprio trabalho, expectativas profissionais com uma discrepância entre expectativas de desenvolvimento profissional e aspetos reais de seu trabalho, sentimentos de injustiça nas relações laborais, tipicamente o trabalho por turnos ou noturno, o suporte organizacional, precário ou relacionamento conflituoso entre colegas,

Os fatores sociais são determinados pelo suporte social e familiar e pela dificuldade em manter um prestigio social, o que leva o individuo a manter vários empregos e resulta na sobrecarga de trabalho, falta de tempo para descanso e lazer.

Este quadro está associado a diferentes perturbações psiquiátricas, nomeadamente à depressão e suicídio; o abuso ou dependência de álcool ou outras substâncias e patologias psicossomáticas.

Para o trabalho há consequências ao nível do aumento da despesas, tempo e dinheiro, com a consequente rotatividade de funcionários, o absentismo e as baixas, com origem na síndrome de burnout. Os indivíduos com burnout investem menos tempo e energia no trabalho, fazem apenas o que é estritamente necessário e faltam com mais frequência. Além de trabalharem menos, não trabalham tão bem.

Também há que ter em consideração as consequências para o individuo: as físicas como a fadiga, dores musculares, distúrbios do sono, enxaquecas, entre outros, e as psíquicas como a falta de concentração, alteração de memória, lentidão de pensamento. Podem surgir problemas de agressividade, de consumo de substâncias (álcool, café, tabaco, tranquilizantes, substâncias ilícitas) e comportamentos de alto risco e até mesmo o suicídio.

 

Fonte: intervenção de Ádrián Gramary na conferência As Doenças do Século XXI

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